ASAE e as Quotas
O livro de Simon Montefiore sobre "a corte do Kremlin" dá conta de alguns aspectos dessa política de quotas de contra-revolucionários, quando o "governador" de Moscovo, o próprio Krutschev, precisa de alargar a quota de 50 000 fuzilamentos e envia uma carta a Estaline a pedir a sua compreensão; do género, "camarada, preciso de matar mais uns tantos, seja generoso e autorize". Mais tarde, nas mesmas funções mas em Kiev, o futuro secretário-geral do PCUS tem dificuldade em cumprir a sua percentagem de fuzilamentos e pede ao Kremlin que lhe envie um profissional, de cutelo e avental, porque nas duas semanas antes de Agosto precisa de liquidar um certo número de contra-revolucionários a fim de cumprir a sua quota.
E assim vamos.
Na China, idem. Mao, logo a seguir à Guerra da Coreia, para onde já tinha enviado para a linha da frente os "voluntários" que outrora tinham pertencido às tropas nacionalistas de Chiang Kai-Chek, determina que 5% da população é constituída por contra-revolucionários que era preciso eliminar.
No caso português, o director da ASAE diz que o seu documento e as folhas de excel em anexo era apenas "material interno" e teria sido enviado por engano. Azar. Ele existe e, mesmo "ilegítimo" (como esclarece ao Expresso), fez de "ordem interna", distribuído por mail a partir de Lisboa ou em papel pela Direcção do Norte: há umas tantas metas, uns tantos objectivos - e uns tantos números de apreensões, de prisões, de "detenções" e de encerramentos. Beria e Estaline também não publicavam os números das quotas de fuzilamentos no Pravda. A direcção nacional da ASAE diz que não é bem assim: são apenas indicadores, porque os inspectores da ASAE é que são inspeccionados. Exactamente: Beria também ia da Ucrânia ao Casaquistão para ver como os líderes regionais iam cumprindo a sua "quota de abate".
Claro que há aqui um problema - o da equivalência moral. António Nunes não tem a presciência de Estaline nem a esperteza de Beria. Nem a maldade de Mao. É apenas um mandarete que se contenta em aumentar o seu poder. Mas o método está lá, e isso é intimadatório.
Já agora, porque é que o actual director da ASAE foi demitido (da direcção de Viação, ou Rodoviária) por António Costa quando este era ministro da Admnistração Interna? É uma coisa que me faz espécie.
Francisco José Viegas (do blogue A Origem das Espécies)



