14.10.08

Na Rota do Êxodo - parte I

O colega Jerónimo Costa, interpretando o sentimento de milhares e milhares de professores, escreveu um texto longo mas incisivo sobre o momento que se vive actualmente nas Escolas.
Quero agradecer-lhe a disponibilidade com que se prontificou a partilhá-lo com os leitores deste blogue.
Devido à extensão do texto, este será publicado, por partes, ao longo dos próximos dias.
1. Na minha fugaz leitura da imprensa detenho-me, por instantes, no “lead” da primeira página do JN (08.10.2008): Professores reformam-se à média de 400 por mês.
Embora madraço, epíteto outorgado, em tempos, pelo Presidente do Conselho aos professores, ainda consigo, por um qualquer desígnio volitivo, seguir com atenção um dos subtítulos
Fartos da burocratização da carreira dispõem-se a sair perdendo dinheiro.
Em circunstâncias normais da vida democrática de um povo, esta constatação haveria de semear alguma perplexidade e colher outra tanta indignação efectiva. Mas não! Subtraindo opiniões pontuais, a indiferença – até a das próprias vítimas – parece mensurar o tom conformista com que, dia após dia, se vai aceitando o que parece inevitável. A escola não é uma criação recente; a sua institucionalização remonta à antiga Grécia onde a academia e o liceu, emergindo de um topos divino, se foram emendando até aos dias que correm. Como obra humana, mesmo plantada em lugar sagrado, a escola não está isenta de erros. Nela confluem as crises de todo o género, principalmente as sociais, e dela emanam, tantas vezes, as soluções capazes de reinventar um futuro que parece perdido. Mas, mesmo com o terramoto que todos os dias tem o epicentro na 5 de Outubro, é preciso que os que decidem não esqueçam que em qualquer escola, pese embora a subtil confusão de babel, na designação dos que ensinam, haverá sempre professores, mesmo se em tempos transmitiam o saber, mais recentemente trabalharam por objectivos ou, até, se hoje, os querem desocultadores de competências do “nada”, espalhadas por evidências de quase tudo, ao serviço de belas estatísticas que hão-de fazer de nós um povo certificado até ao tutano, mas acolhendo o raso grau de qualificação que nenhuma mecânica dos números conseguirá iludir.
Há três anos que artífices expeditos – pagos pelo erário público – não se cansam de engendrar todo o tipo de estratégias capazes de, cirurgicamente, denegrir a imagem dos professores, junto da opinião pública. Desde o horário de trabalho, às faltas, desde a avaliação à gestão democrática, tudo foi sendo pensado para, numa pirotecnia legislativa sem limites, e numa saga despudorada da igualdade, tratar tudo pela mesma medida. Alguns excertos de prosa governamental, se a tanto a competência da leitura e o engenho e a arte me não desacompanharem, ficarão como ex-líbris do que foi sendo debitado em nosso prejuízo e que, em circunstâncias normais, à semelhança de criminalizações várias, também haveria de ser crime por consubstanciar violência psicológica, em altíssimo grau.
(Continua)

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