13.11.09

A nova ministra da educação

Em entrevista à RTP, televisão oficial do regime, a nova ministra da educação foi toda ela alçada em sorrisos. Contrastando com o estilo trauliteiro da D. Milu, este registo isabelino pode significar duas coisas: ou pretende fazer tábua rasa das políticas anteriores [no que não acredito], ou é a nova "ana jorge" da educação. À semelhança desta, não alterará nada de substantivo, mas irá enveredar por um estilo soft que iludirá os mais incautos. Para já, nem o benefício da dúvida lhe concedo.

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7.11.09

GOSTO A SER


... nunca sinto saudades por ter sido alguém, em tempos. se mudei, o sentido é ascendente. se é ascendente, gosto-me mais.
um beijinho para todos.

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6.11.09

Medina Carreira sem papas na língua

Em entrevista ao jornal Expresso, Medina Carreira igual a si próprio: directo, frontal, corrosivo!
Como aperitivo esta declaração:
- Gosta pouco de pessoas de espectáculo, com muito de marketing.
- Detesto-os. Detesto fantochadas. Aliás, não os vejo. Quando aparece o Sócrates na televisão, eu mudo de canal. Para espectáculo, vou ao circo.
Ó senhor doutor, só não lhe perdoo esta:
- E ainda sofre pelo Benfica?
-Não. No tempo em que eu andava por lá, o Benfica era o clube principal de Portugal. Hoje é uma coisa assim secundária, como o Vitória de Setúbal ou assim. Já não há ambições, temos de nos restringir nos nossos horizontes. E o futebol caiu numa cegada parecida com a política... Não tenho paciência.
Mas isso é coisa que se diga do Glorioso?!
Para ler a entrevista na totalidade,clique aqui.

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29.10.09

Ainda a polémica com Saramago (II)

"As palavras de Saramago pareceram-me ainda como o "much ado about nothing", o muito barulho para nada, com que soa qualquer coisa que nem remotamente é novidade. Há cerca de dois mil anos que os filósofos judeus vêm debatendo a brutalidade de Deus e da humanidade no Antigo Testamento, em tons bastante mais emocionados do que os usados no debate em causa. Talvez a história mais criticada do Antigo Testamento seja narrada no livro deJob. Depois de um Satanás céptico dizer a Deus que a piedade de Job se deve apenas à prosperidade de que goza, Deus põe à prova a fé e a dedicação de Job arruinando-lhe a vida da forma mais horrível. Podemos encontrar comentários sobre a interpretação a dar a esta história - assim como de qualquer outra história bíblica - em centenas de livros escritos por filósofos judeus - e também alguns cristãos - ao longo dos últimos dois mil anos. Como é possível que alguém que se considera instruído não tenha consciência desta herança cultural?
As primeiras obras escritas analisando a natureza de Deus, tal como é descrita no Antigo Testamento, são o Talmude, um compêndio dos textos rabínicos sobre ética e cultura compilados entre os anos 200 e 500 da era cristã. Mais tarde, na época medieval, o tema da natureza de Deus foi explorado por dezenas de talentosos filósofos medievais, incluindo pensadores magníficos como Maimónides e Moisés de Leão, autor do século XIII, que escreveu o livro mais influente do misticismo judaico, o Zohar. Mais recentemente, estudiosos como Walter Benjamin e Martin Buber acrescentaram facetas modernas ao debate. A natureza da relação de Deus com o homem - a Sua crueldade e, em particular, a Sua "surdez" face ao sofrimento humano - tornou-se num dos mais importantes tópicos de discussão no mundo judaico desde o Holocausto, pelo mais óbvio e terrível dos motivos. Simultaneamente, este debate filosófico foi sendo reflectido na literatura judaica desde os meados do século XIX, na obra de muitos escritores, de Sholem Aleichem e Shmuel Yosef Agnon - que recebeu o Prémio Nobel em 1966 - a Philip Roth.
Concluindo, custa-me compreender como é que alguém, ainda que vagamente familiarizado com a filosofia e a literatura ocidentais, pode acreditar que erguer-se em 2009 contra a crueldade contida no Antigo Testamento tem alguma coisa de novo ou de chocante. Ou sequer interessante. O que é interessante é perguntarmo-nos por que razão exige Deus uma tão absoluta fidelidade aos israelitas e os castiga tão brutalmente por Lhe desobedecerem. Por que são outros povos, como os cananitas, olhados com tanto desprezo. O que diz tudo isto sobre as condições políticas e sociais em Israel em 500 a.C. E o que diz a relação de Deus com Israel sobre a "natureza tribal" das religiões da antiguidade.
Estes, sim, são temas importantes a merecer respostas sérias dos estudiosos.
Mas, naturalmente, nada disto mereceu a atenção de Saramago nem dos que reagiram às suas críticas ao Antigo Testamento. O que me traz ao aspecto mais perturbador e alarmante de toda esta tola controvérsia. Os jornalistas e os responsáveis religiosos portugueses de um modo geral trataram os comentários de Saramago como importantes! Graças a eles, os meios de comunicação deram-lhe mais tempo na televisão e mais espaço nos jornais do que a outras questões muito mais importantes. E alguns representantes da Igreja Católica atacaram-no com uma ferocidade emocional que revela bem que consideram tais opiniões sobre o Antigo Testamento como um obstáculo à fé. Mais uma vez, tal como salientei mais atrás, os comentários de Saramago não são nem chocantes nem novos. E apenas representam um obstáculo à fé para quem não tenha a menor ideia do que é e do que pretendia ser o Antigo Testamento. As críticas de Saramago são unicamente banalidades superficiais, que revelam uma profunda ignorância da filosofia e da religião ocidentais e uma total incompreensão da linguagem poética e narrativa de desde há mais de três mil anos. Só quem ignora tal herança, jornalistas e responsáveis religiosos incluídos, poderia tornar o patético desabafo do romancista numa tal polémica. E, para mim, essa foi a parte mais desanimadora e mais perturbante de toda esta "inventada" notícia: descobrir que na sociedade onde vivemos, entre os seus membros mais ilustres e cultivados, possa prolongar-se tão lastimosa ignorância de uma parte importantíssima do legado civilizacional da filosofia e da cultura ocidentais."

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28.10.09

Ainda a polémica com Saramago (I)

No sequência das polémicas afirmações de Saramago, as reacções que se seguiram, tanto de um lado como de outro, foram, na sua maioria, ditadas mais pela emoção do que pela razão. O escritor Richard Zimler dá-lhe a melhor resposta que li até ao momento. Como o texto é bastante longo, publicá-lo-ei em dois dias. Merece ser lido com a devida atenção.
"Quando José Saramago decidiu espevitar o interesse pelo seu último livro afirmando que "a Bíblia é um manual de maus costumes", a minha primeira reacção - como escritor e como alguém de há muito tempo dedicado aos estudos de religião comparada - foi rir-me para comigo e murmurar "e depois?".
São várias e de ordem vária as razões por que desvalorizei os comentários de Saramago. O Antigo Testamento, praticamente na sua totalidade, nunca teve como propósito constituir qualquer coisa de parecido com um manual de boas ou más maneiras. Ao ler a Bíblia, pouco que seja, ninguém pretende encontrar um modelo para o seu comportamento nos actos do Rei David, de Betsabé, de Noé, de Adão, de Eva ou de quaisquer outras pessoas referidas nas histórias bíblicas. Na tradição judaica, tal atitude pura e simplesmente nunca existiu. Nem o mais ortodoxo dos rabinos obedece hoje à maioria das regras de conduta do Deuteronómio, mais que não fosse por estarem de tal modo datadas que seriam irrelevantes para a vida dos nossos dias. Assim como ninguém no mundo judeu modela o seu comportamento pelo de Deus. Fazê-lo seria considerado ingénuo na melhor das hipóteses ou herético na pior. O Antigo Testamento é formado em grande parte por uma compilação de histórias, muito à semelhança de um romance. E o seu tema principal é a difícil e por vezes tumultuosa relação entre Deus e Israel, entre o criador transcendente de um universo e o seu povo escolhido. É uma história de sobrevivência, de como os israelitas usaram de todos os meios à sua disposição - incluindo a guerra - para defender aquilo que consideravam a sua particular aliança com o Senhor. Como qualquer romance ou outra forma de narrativa que intente descrever todos os cambiantes da conduta humana, dela fazem parte tanto a opressão intolerável, os crimes de guerra e os assassinatos, como também o amor, a dedicação e o heroísmo. Trata de seres humanos tal como eles são, e não como eles deveriam ser. Pegar no Antigo Testamento para criticar a brutalidade dos hebreus ou de outros povos da antiguidade é o mesmo que criticar Dostoievsky por escrever sobre um assassinato premeditado em Crime e Castigo ou criticar Anne Frank por descrever como a crueldade nazi afectou a sua família.
Inclinava-me a pensar que qualquer escritor haveria de olhar como vital, tanto para ficcionistas como para ensaístas, a exploração de toda a gama das emoções e acções humanas, mas ao que parece enganava-me, pelo menos no caso particular de Saramago.
Confesso que as palavras de Saramago me deixaram perplexo de um modo muito pessoal ao implicarem que não deveríamos escrever sobre os horrendos crimes cometidos por seres humanos, pois uma boa parte do que faço nos meus romances é explorar as vidas de pessoas cujas vozes têm sido sistematicamente silenciadas por ditadores, generais e inquisidores religiosos. Penso que escrever sobre a repressão violenta e sobre os tratamentos cruéis é essencial, sobretudo quando se busca a criação de um mundo de mais justiça e humanidade. E uma das coisas que mais respeito e valorizo no Antigo Testamento - apesar de não crer num Deus pessoal e de não praticar nenhuma forma de fé, nem sequer a religião dos meus pais, o judaísmo - é o facto de aí nada ser escamoteado ou escondido. Quem quer que deseje conhecer até onde pode chegar a abominação e a crueldade humanas e até que ponto Deus - ou o Destino - pode ser impiedoso bastar-lhe-á abrir o Antigo Testamento. Para quem nunca o fez, sugeriria que lessem o tratamento dado pelo Rei David a Urias, narrado no Segundo Livro de Samuel. Será difícil encontrar descrição mais poderosa da traição e da brutalidade humanas.
Por outro lado, considerei que no fundo não valia a pena dar importância aos comentários de Saramago, pela ingenuidade e infantilidade da interpretação literal que ele (juntamente com os fundamentalistas religiosos) faz das histórias do Antigo Testamento. Uma das mais importantes lições que retirei do estudo da história das religiões e da mitologia é que as narrativas mitológicas são - na sua maior parte - poesia e não prosa. A história de Adão e Eva é poesia. Ou será que haverá alguém que acredite que Eva foi feita de uma costela de Adão? O autor desta narrativa do Antigo Testamento está a recorrer a uma linguagem simbólica - tal como poetas muito posteriores, como Shakespeare ou Camões, recorreram à linguagem simbólica para criarem as suas obras-primas. Ou será que algum leitor de Os Lusíadas pensa que os navegadores portugueses depararam com um temível gigante chamado Adamastor nas suas viagens da época das Descobertas? Ou, quando a narrativa bíblica conta que Moisés separou as águas do Mar Vermelho no Livro do Êxodo para que o seu povo pudesse fugir do Egipto, será que alguém com mais de dez anos acredita que ele possa ter murmurado algum abracadabra hebraico e produzido tal milagre? Espero bem que não. O Antigo Testamento pode ter como referência um acontecimento histórico - a libertação do povo hebraico -, mas a linguagem utilizada é poética e simbólica. Por assim ser, está aberto a diferentes interpretações. Pode acontecer que o que aqui se pretende é falar da viagem espiritual que cada um de nós pode fazer ao longo das nossas vidas, da escravidão para a liberdade. Nesse caso, a história de Moisés será sobre a nossa aspiração - como indivíduos e como povo - à segurança, a uma vida realizada e com sentido. Tomar à letra estas histórias é simplesmente não entender o Antigo Testamento e ignorar por completo dois mil anos da tradição poética ocidental." (continua)

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24.10.09

Saramago e a Bíblia

Qual a diferença entre um fanático religioso e um fanático ateu? Simples: um fanático religioso vê o demónio em toda a parte. O fanático ateu vê Deus em toda a parte.
Mas a estrutura mental é a mesma: uma cabeça maniqueísta e vigilante povoada pelo ressentimento e pelo ódio. Por isso acompanhei as palavras de Saramago sobre a Bíblia com interesse. Um mero golpe publicitário, como disseram os cínicos? Saramago, ao contrário de Lobo Antunes, não precisa de publicidade para vender. Uma exibição de mendacidade intelectual, como acusaram os eruditos? Um fanático, por definição, não se distingue pela sabedoria letrada. As palavras de Saramago valem como fenómeno político: na sua intolerância e violência, elas mimetizam verbalmente o que em outras paragens se resolve pelas armas ou pela bomba.

João Pereira Coutinho, Colunista, in Correio da Manhã

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21.10.09

As tonterias de Saramago

Não tendo podido participar no "Fórum" TSF, venho expressar a minha opinião pessoal sobre as declarações proferidas por Saramago acerca da Bíblia:
1- É triste que Saramago tenha de recorrer ao insulto e à calúnia para publicitar um livro o que, desde logo, define um carácter, atitude, de resto, igual à do amigo Gunter Grass, e aproveitada pelos "media" para amplificar o pseudo-debate.
2- Saramago revela ignorância e utiliza métodos intelectualmente desonestos ao misturar "Bíblia" com Antigo Testamento, Novo Testamento e, pasme-se, cúmulo da má formação, com o "Al Corão"!!!
3- Saramago é um homem ressentido e frustrado; depois da queda da URSS, enveredou pelos insultos e calúnias à ICAR. Devia estar calado: stalinista convicto, sempre defendeu os campos de concentração soviéticos onde foram massacrados milhões de seres humanos.Nunca se lhe ouviu uma palavra de condenação dessa barbárie! Conta, mais uma vez, com a colaboração dos "media" que não lhe perguntam nada sobre essa defesa da selvajaria.
4- Saramago esquece, mais uma vez deliberadamente, que Cristo e o Novo Testamento foram a maior revolução da História da Humanidade, ao decretar que todos os seres humanos são iguais, que se deve perdoar e até amar os inimigos ( e há muitos exemplos destes na História do Cristianismo!).
5- Saramago esquece também, e deliberadamente, que a ICAR é a maior Instituição de apoio aos Seres Humanos escorraçados pela sociedade, sejam os "dalits" na Índia (exemplo de Madre Teresa- cujo aniversário da morte foi vergonhosamente censurado nos "media"- e milhares de seguidores) sejam os sem-abrigo, sejam os doentes profundos, sejam as doenças tradicionais em África ou Ásia, enfim, exemplos infindáveis.
6- É inacreditável que a discussão "esqueça", também deliberadamente, as ideias e comportamentos censórios de Saramago ( ou pensam que nos esquecemos dos tempos em que foi subdirector do DN...) que lhe retiram autoridade moral para falar sobre o que quer que seja.
Não é uma questão de liberdade de expressão: Saramago sempre a teve, e bem amplificada!!! É uma questão de imparcialidade, objectividade e respeito pelos ouvintes/leitores.

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20.10.09

RECORDAR OUTUBRO DE 1921‏

O 19 de Outubro de 1921 foi o fim da 1ª República. Formalmente ela continuou até 28 de Maio de 1926. Pelo meio, alguns episódios grotescos de um regime em degenerescência: as governações de António Maria da Silva, o carbonário tornado o chefe todo poderoso do PRP e dos respectivos caciques, directas ou por interpostos testas de ferro; a eleição de Teixeira Gomes para a Presidência da República, uma manobra de Afonso Costa para tentar regressar ao poder; a renúncia de Teixeira Gomes quando percebeu que nem conseguia o regresso de Afonso Costa, nem passaria de um títere nas mão do odiado chefe do PRP: renunciou e abandonou o país no primeiro barco que zarpou da barra de Lisboa com destino ao estrangeiro.
Entre o assassinato de Sidónio Pais e os massacres de 19 de Outubro de 1921, Portugal, teoricamente um regime parlamentar, viveu sob uma ditadura tutelada pelos arruaceiros e rufias dos cafés e tabernas de Lisboa e pela Guarda Nacional Republicana, uma Guarda Pretoriana do regime, bem municiada de artilharia e armamento pesado, concentrada na zona de Lisboa e cujos efectivos passaram de 4575 homens em 1919 para 14 341 em 1921, chefiados por oficiais «de confiança», com vencimentos superiores aos do exército. A queda do governo de Liberato Pinto, o principal cacique e mentor da GNR, em Fevereiro de 1921, colocou as instituições democráticas na mira dos arruaceiros e pretorianos do regime a que se juntaram sindicalistas, anarquistas, efectivos do corpo de marinheiros, etc.. O governo de António Granjo, formado a 30 de Agosto, era o alvo.
O nó górdio foi o caso Liberato Pinto, entretanto julgado e condenado em Conselho de Guerra por causa das suas actividades conspirativas. Juntamente com o Mundo, a Imprensa da Manhã, jornal sob a tutela de Liberato Pinto, atacava diariamente o Governo, tentando provar, através de documentos falsos, que o Governo projectava o cerco de Lisboa por forças do Exército, para desarmar a Guarda Nacional Republicana. No Diário de Lisboa apareceram, entretanto, algumas notas relativas ao futuro movimento. Em 18 de Agosto, um informador anónimo dizia da futura revolta: «Mot d'ordre: a revolução é a última. Depois, liquidar-se-ão várias pessoas».
O coronel Manuel Maria Coelho era o chefe da conjura. Acompanhavam-no, na Junta, Camilo de Oliveira e Cortês dos Santos, oficiais da G. N. R., e o capitão-de-fragata Procópio de Freitas. O republicanismo histórico do primeiro aliava-se às forças armadas, que seriam o pilar da revolução. Depois de uma primeira tentativa falhada, em que alguns dos seus chefes foram presos e libertos logo a seguir, o movimento de 19 de Outubro de 1921 desenrolou-se num dia apenas, entre a manhã e a noite. Três tiros de canhão disparados da Rotunda pela artilharia pesada da GNR tiveram a sua resposta no Vasco da Gama. Passavam à acção as duas grandes forças da revolta. A Guarda concentrou os seus elementos na Rotunda; o Arsenal foi ocupado pelos marinheiros sublevados, que não encontraram qualquer resistência; núcleos de civis armados percorreram a cidade em serviço de vigilância e propaganda. Os edifícios públicos, os centros de comunicações, os postos de comando oficiais caíram rapidamente em poder dos sublevados. Às 9, uma multidão de soldados, marinheiros e civis subiu a Avenida para saudar a Junta vitoriosa. Instalado num anexo do hospital militar de Campolide, o seu chefe, o coronel Manuel Maria Coelho, presidia àquela vitória sem luta.
Em face da incapacidade de resistir, às dez da manhã, António Granjo escreveu ao Presidente da República: «Nestes termos, o governo encontra-se sem meios de resistência e defesa em Lisboa. Deponho, por isso, nas mãos de V. Ex.a a sorte do Governo...» António José de Almeida respondeu-lhe, aceitando a demissão: «Julgo cumprir honradamente o meu dever de português e de republicano, declarando a V. Ex.a que, desde este momento, considero finda a missão do seu governo...» Recebida a resposta, António Granjo retirou-se para sua casa. Eram duas da tarde.
O PR recusou-se a ceder aos sublevados. Afiançou que preferiria demitir-se a indigitar um governo imposto pelas armas. Às onze da noite, ainda sem haver solução institucional, Agatão Lança avisou António José de Almeida que algo de grave se estava a passar. Perante tal, conforme descreveu depois o PR, «Corri ao telefone e investi o cidadão Manuel Maria Coelho na Presidência do Ministério, concedendo-lhe os poderes mais amplos e discricionários para que, sob a minha inteira responsabilidade, a ordem fosse, a todo o transe, mantida».
Passando a palavra a Raul Brandão (Vale de Josafat, págs. 106-107), «Depois veio a noite infame. Veio depois a noite e eu tenho a impressão nítida de que a mesma figura de ódio, o mesmo fantasma para o qual todos concorremos, passou nas ruas e apagou todos os candeeiros. Os seres medíocres desapareceram na treva, os bonifrates desapareceram, só ficaram bonecos monstruosos, com aspectos imprevistos de loucura e sonho...».
Sentindo as ameaças que se abatiam sobre ele, António Granjo buscou refúgio na casa de Cunha Leal. Cunha Leal tinha simpatias entre os revoltosos (tinha aliás sido sondado para ser um dos chefes do movimento, mas recusara) e Granjo considerou-se a salvo. Todavia, a denúncia de uma porteira guiou os seus perseguidores que tentaram entrar na casa de Cunha Leal para deter António Granjo. Cunha Leal impediu-os, mas a partir desse momento ficaram sem possibilidades de fuga porque, pouco a pouco, o cerco apertara-se e grupos armados vigiavam a casa. Apelos telefónicos junto de figuras próximas dos chefes da sublevação, que pudessem dar-lhes auxílio, não surtiram efeito.
Perto das nove da noite compareceu um oficial da marinha, conhecido de ambos, que afirmou que levaria Granjo para bordo do Vasco da Gama, um lugar seguro. Cunha Leal vacilou. Granjo mostrou-se disposto a partir. Cunha Leal acompanhou-o, exigindo ao oficial da marinha que desse a palavra de honra de que não seriam separados. Meteram-se na camioneta que afinal não os levaria ao refúgio do Vasco de Gama, mas ao centro da sublevação.A camioneta chegou ao Terreiro do Paço onde os marinheiros e os soldados da Guarda apuparam e tentaram matar António Granjo. Cunha Leal conseguiu então salvá-lo. A camioneta entrou, por fim, no Arsenal e os dois políticos passaram ao pavilhão dos oficiais. Um grupo rodeou Cunha Leal e separou-o de Granjo, apesar dos seus protestos. Os seus brados levaram a que um dos sublevados disparasse sobre ele, atingindo-o três vezes, um dos tiros, gravemente, no pescoço. Foi conduzido ao posto médico do Arsenal.

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29.7.09

Férias

Até Setembro interrompemos os nossos comentários. Desejamos a todos os leitores umas óptimas férias.

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17.7.09

As "Novas Oportunidades"

Uma das bandeiras do (des)governo socrático, no campo da educação, foi a tentativa de promover a educação de adultos através das chamadas "novas oportunidades". Uma colega, em texto publicado, e que me chegou por mail, arrasa este sistema de pseudo valorização das pessoas. Aqui fica o seu desabafo:
A
ignorância
certificada
"O
país
encontra‐se
com
uma
taxa
muito
baixa
de
escolaridade
em
relação
aos
países
da
EU
(União
Europeia).
Logo
há
necessidade
de
colmatar
esta
situação
e,
para
isso
foram
criadas
“As
Novas
Oportunidades”,
 uns
 cursinhos
 intensivos
 de
 três
meses,
 no
 fim
 dos
 quais
 os
“estudantes”(agora
 com
 o
 nome
 pomposo
 de
 formandos)
 obtêm
 o
 certificado
 de
equivalência
ao
9º
ou
12º
anos.
Fantástico,
se
os
cursinhos
fossem
a
sério!
...

Perante
 a
 publicidade
 aos
 referidos
 cursos,
 aqueles
 que
 abandonaram
 a
 escola
 ou,
 por
qualquer
 razão
 não
 concluíram
 um
 dos
 ciclos
 de
 escolaridade,
 esfregaram
 as
 mãos
 de
contentes,
uma
vez
que
agora
se
lhes
oferece
a
oportunidade
de
obterem
um
certificado
de
habilitações
 que
 lhes
 poderá
 vir
 a
 ser
 útil.
 E
 como
 diz
 o
 ditado”mais
 vale
 tarde
 do
 que
nunca”,
eles
lá
se
inscreveram.
Por
outro
lado,
três
meses
das
7.00
às
10.00
horas,
horário
pós‐laboral,
uma
vez
por
semana,
era
coisa
fácil
de
realizar.
Coitados
daqueles
que
andam
3
anos
(7º,
8º
e
9º
anos)
para
concluírem
o
3º
ciclo!!!
Isso
é
que
é
difícil!

Na
rua,
no
café,
nos
 locais
públicos
em
geral
ouve‐se:
“Ah!
Agora,
ando
a
estudar!
Ando
a
fazer
o
9º
ou
12º
ano!
Aquilo
é
porreiro,
pá!”

Entretanto,
 há
 pessoas
 com
 quem
 contactamos
 no
 dia‐a‐dia,
 mais
 próximos
 de
 nós, o
cabeleireiro,
o
sapateiro,
a
empregada
doméstica,
etc.
que
 também
nos
confidenciam
com
ar
feliz:
“Agora,
com
esta
idade,
ando
a
estudar!
Ando
a
fazer
o
9º!”
E
nós,
simpaticamente,
sorrimos,
 abanamos
 a
 cabeça
 e
 dizemos
 que
 fazem
 bem,
 sempre
 é
 uma
 mais
 valia…
contudo,
 numa
 dessas
 conversas,
 tentei
 descobrir
 que
 disciplinas
 constavam
 do
 curso,
ficando
a
saber
que
eram
Português,
Matemática,
Informática
e
Cidadania
para
o
9º
ano;
e
indaguei
ainda
como
eram
as
aulas
e
a
avaliação
final.

E
 fiquei
 atónita.
 Em
 Português
 o
 formando
 teria
 que
 escrever
 a
 história
 da
 sua
 vida
 e
 a
razão
por
que
 se
 inscreveu
no
 curso,
 sendo
o
 texto
 corrigido
 aula
 a
 aula
pela
respectiva
formadora;
Matemática
consistia
em
efectuar
cálculos
básicos
e
apresentar,
por
exemplo,
a
receita
de
um
bolo
e
duplicá‐la;
para
Informática
apercebi‐me
que
seria
a
apresentação
do
trabalho
 escrito
 e,
 posteriormente,
 quem
 quisesse
 apresentá‐lo‐ia
 em
 “powerpoint”;
 em
Cidadania,
os
 formandos
apresentavam
os
diferentes
resíduos
e
diziam
em
que
contentor
os
 deveriam
 colocar.
 A
 nível
 de
 Português
 ainda
 foi
 pedida
 a
 leitura
 de
 um
 livro
 e
 seu
comentário,

sendo
a
selecção
ao
critério
do
 formando
o
que
deu
origem
a
autores
“light”,
nada
de
autores
portugueses
de
renome;
a
acrescer
a
este
comentário
 teriam
 também
de
fazer
a
apresentação
crítica
a
um
filme
e
a
uma
reportagem.
Todos
estes
elementos
seriam
entregues
num
dossier,
cuja
capa
ficaria
ao
critério
de
cada
formando.

Três
 meses
 passaram
 num
 abrir
 e
 fechar
 de
 olhos,
 por
 isso
 um
 destes
 dias,
 enquanto
aguardava
 a
 minha
 vez
 para
 ser
 atendida
 no
 consultório
 médico,
 fui
 brindada
 com
 o
dossier
do
curso
da
recepcionista
e
respectivo
certificado
de
9º
ano.
Engoli
em
seco
aquelas
páginas
 recheadas
 de
 erros
 ortográficos
 e
 de
 construção
 frásica,
 desencadeamento
 de
ideias
e
falta
de
coesão,
(…),
entremeados
por
bonitas
fotografias;
na
II
parte,
umas
contitas
simples
e
duas
 tábuas
de
multiplicação;
e
em
Cidadania,
os
 contentores
do
 lixo
 coloridos
com
a
indicação
dos
resíduos
que
se
põem
lá
dentro.
Em
 seguida,
 com
 um
 sorriso
 muito
 branco
 (nem
 o
 amarelo
 consegui!)
 e,
 como
 bem‐educada
 que
 sou,
 felicitei
 a
 dona
 do
 dossier
 cuja
 capa
 estava
 realmente
bonita,
 original,
revelando
 bastante
 criatividade
 e
 ouvi‐a
 alegre
 dizer:
 “A
 formadora
disse‐me
 que
 tinha
hipóteses
de
fazer
o
12º
ano.
Logo
que
possa,
vou
fazer
a
minha
inscrição!”
Fiquei
 estarrecida,
 sem
 palavras
 para
 lhe
 dizer
 o
 que
 quer
 que
 fosse.
 “As
 Novas
Oportunidades”
 são
 isto?
 Está
 a
 gastar‐se
 tanto
 dinheiro
 para
 passar
 certificados
 de
ignorância?
Será
que
todos
os
formadores
serão
iguais
a
estes?
E
o
9º
ano
é
escrever
umas
tretas
e
ler
um
Nicholas
Sparks
e
um
artigo
da
revista“Simplesmente
Maria”?
E
o
12º
ano
será
a
mesma
coisa
(queria
dizer
chachada)
acrescida
de
uma
língua?

Continuando
assim
o
país
a
tapar
o
sol
com
a
peneira,
teremos
em
poucos
anos
a
ignorância
certificada!"
Marta
Oliveira
Santos, Licenciatura em Filologia Românica; colaboradora de várias publicações.

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