3.12.11

António Barreto: Entrevista ao "i" : (III)

O que é que acha que as pessoas não sabem?

Ainda ninguém sabe porque é que a dívida teve esta evolução nestes cinco anos. Foi graças a quê? Quais são as responsabilidades? Foi o comércio externo, foi a produção de bens, foi a imigração, foi a emigração, foi a fuga de fundos, foi a corrupção, foi a fuga ao fisco, foram as off-shores, foi a especulação financeira, foi a bolha imobiliária, foi a falta de crédito?
E é fundamental saber isso agora?

É, para corrigir. Se tem um ano ou dois de austeridade e depois faz as mesmas coisas… Entretanto cancelou projectos, cancelou TGV, aeroporto e etc., e depois, se daqui a dois anos recomeça tudo?!
Sabemos que se gastou mais do que se tinha…Vivemos a crédito e empurrámos para a frente.


As pessoas estão conscientes disso, ou acredita que não?

Estão. Mas agora há quem pense que basta nacionalizar tudo – banca, empresas –, colectivizar tudo que o problema resolve-se. Eu acho que não, que se agrava ainda. Há pessoas que dizem que basta sair do euro. Eu acho que não, que se isso acontecer os portugueses perdem 40% ou 50% do seu nível de vida em dois anos, e teremos enormes dificuldades em pagar dívida, em relacionar-nos com o exterior.


Qual deve ser o caminho?

Não tenho competência para dar uma solução para a maior parte das coisas importantes, mas aquilo que se desenha diante de mim como uma hipótese, que é muito abstracta, se assim quiser, é isto: o Estado português está falido – e é melhor não andar à procura de outros termos, default e sei lá o que mais… Estamos falidos e a viver a crédito! Portugal já tem um enorme empréstimo à sua conta, vai certamente ter mais empréstimo ainda, e vai precisar nos próximos cinco a dez anos de recorrer a financiamentos externos. Não há dúvida sobre isto. Portanto, é necessário criar austeridade suficiente para reduzir a despesa pública, o endividamento de empresas e de pessoas, o que quer dizer que é preciso gastar muito menos, comprar muito menos ao estrangeiro e tentar o mais possível produzir um pouco mais e melhor. E não vejo muitas possibilidades de Portugal produzir mais e melhor antes de dois ou três anos, ou quatro… O que quer dizer que o importante, a meu ver, era, numa primeira fase, Portugal encontrar uma solução de estabilidade provisória com a União Europeia.

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