2.7.09

Sophia

Faz hoje cinco anos que desapareceu do mundo dos vivos Sophia de Mello Andresen, uma das maiores poetisas de língua portuguesa.
A nossa homenagem.



Assim o amor


Espantado meu olhar com teus cabelos

Espantado meu olhar com teus cavalos

E grandes praias fluidas avenidas

Tardes que oscilam demoradas

E um confuso rumor de obscuras vidas

E o tempo sentado no limiar dos campos

Com seu fuso sua faca e seus novelos

Em vão busquei eterna luz precisa

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3.2.09

Paciências

"As tias velhas dos que as tiveram, nos serões a petróleo das casas vagas na província, entretinham a hora em que a criada dorme ao som crescente da chaleira[...] a fazer paciências com cartas. Tem saudades em mim desse sossego inútil alguém que se coloca no seu lugar. Vem o chá e o baralho velho amontoa-se regular ao canto da mesa. O guarda-louça enorme escurece a sombra, na sala de jantar apenumbrada. Sua de sono a cara da criada lentamente por acabar. Vejo isso tudo em mim com uma angústia e uma saudade independentes de ter relação com qualquer coisa. E, sem querer, ponho-me a considerar qual o estado de espírito de quem faz paciências com cartas."

Fernando Pessoa/Bernardo Soares, Livro do Desassosssego

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25.12.08

Poema de Natal

Vasco Graça Moura elaborou uma antologia de poesia sobre o Natal. A edição, de 2005, é do jornal Público, em colaboração com o Millenium-BCP.
Deixo hoje um poema de Mestre André Dias, poeta nascido, provavelmente, em 1435.

Cantada e Lauda da Estrela dos Três Reis Magos que os Levou a Jesu

Estrela nova sobre a gente,
tu ó bom Jesu apareciste.

Estrela apareciste
ao mundo quando naciste,
menino muito fremoso,
muito fraco e muito poderoso,
por salvares toda a gente.
Os reis magos bem-aventurados,
como te virom logo te conhecerom,
dizendo: nado é salvador,
de Deus Padre filho omnipotente.

E disserom:nado é o rei benino
que tem o empério muito divino,
e o seu sinal no céu é aparecido,
que ele é nacido verdaddeiramente.

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13.8.08

Poema da Semana


Poema do Homem Só

Sós,
irremediavelmente sós,
como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.


Os que passam e os que ficam.
Todos se desconhecem.
Os astros nada explicam:
Arrefecem
Nesta envolvente solidão compacta,
quer se grite ou não se grite,
nenhum dar-se de outro se refracta,
nehum ser nós se transmite.
Quem sente o meu sentimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento
sou eu só, e mais ninguém.
Dão-se os lábios, dão-se os braços
dão-se os olhos, dão-se os dedos,
bocetas de mil segredos
dão-se em pasmados compassos;
dão-se as noites, e dão-se os dias,
dão-se aflitivas esmolas,
abrem-se e dão-se as corolas
breves das carnes macias;
dão-se os nervos, dá-se a vida,
dá-se o sangue gota a gota,
como uma braçada rota
dá-se tudo e nada fica.
Mas este íntimo secreto
que no silêncio concreto,
este oferecer-se de dentro
num esgotamento completo,
este ser-se sem disfarçe,
virgem de mal e de bem,
este dar-se, este entregar-se,
descobrir-se, e desflorar-se,
é nosso de mais ninguém.

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18.7.08

Luar à luz do Sol.





O sol nas noites e o luar nos dias



De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.



Natália Correia
Poesia Completa
Publicações Dom Quixote
1999

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2.7.08

Poema da semana

há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu...como seriam felizes as mulheres
à beira-mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado

por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos...sem ninguém

e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta...dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci...acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão

(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no
coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)

um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas de que alguma vez me visite a felicidade

Al Berto
O Medo, 1982

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18.6.08

Tríptico - Poema da Semana


O Livro dos Amantes

Natália Correia

II

Harmonioso vulto que em mim se dilui.
Tu és o poema
E és a origem donde ele flui.
Intuito de ter. Intuito de amor
Não compreendido.
Fica assim amor. Fica assim intuito.
Prometido.
IV

Dá-me a tua mão por cima das horas.
Quero-te conciso.
Adão depois do paraíso
Errando mais nítido à distância
Onde te exalto porque te demoras.

VIII


Eis-me sem explicações
crucificada em amor
a boca o fruto e o sabor
.




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17.6.08

Tu e Nós


RETRATO DE UM AMOR


Iluminas a sombra dos meus dias
neste mundo que abrimos devagar
entre o corpo e a alma, sempre mais
secretos no abismo que os devora.

Maior do que este amor nada haverá
até ao fim dos fins, porque os teus olhos
respondem ao destino, à sua estranha
graça que paira sobre as nossas vidas
agora a transbordarem numa única
razão feita de luz. A tua boca
inunda a minha língua com o sabor
de todos os sentidos que mergulham
a noite numa água sem retorno.

Por ti absorvo o hábito de um verão
em cada beijo cego, surdo e mudo
respirando de súbito em uníssono:
enigma revelado num só frémito,
insónia submersa que, em silêncio,
regressa pouco a pouco aos nossos braços
afogados na espuma do seu mar.

Perto do teu sorriso há uma fonte
embriagada e pura meu amor,
dá-me esse coração, essa primeira
raiz de todo o fogo, esse relâmpago
onde cresce pra nós a flor de um grito;
segreda-me às escuras mais um sonho
antes de adormeceres sobre o meu ombro.

Fernando Pinto do Amaral, Às Cegas, 1997

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11.6.08

Poema da semana

Olha, Marília, as flautas dos pastores
Que bem que soam, como estão cadentes!
Olha o Tejo a sorrir-se! Olha, não sentes
Os Zéfiros brincar por entre as flores?

Vê como ali beijando-se os Amores
Incitam nossos ósculos ardentes!
Ei-las de planta em planta as inocentes,
Vagas borboletas de mil cores!

Naquele arbusto o rouxinol suspira,
Ora nas folhas a abelhinha pára,
Ora nos ares sussurrando gira.

Que alegre campo! Que manhã tão clara!
Mas ah! Tudo o que vês, se eu não te vira,
Mais tristeza que a morte me causara.



Bocage (1765-1805)

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4.6.08

Poema da semana

NÃO TE AMO


Não te amo, quero-te: o amar vem d'alma.
E eu n'alma --- tenho a calma,
A calma --- do jazigo.
Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida --- nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.

Almeida Garrett, in Folhas Caídas

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28.5.08

Poema da Semana

Se tu viesses ver-me...

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...


Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...


Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri


E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...

Florbela Espanca

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21.5.08

Poema da Semana - cantiga de amigo

Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo!
Ai Deus, e u é?


Ai flores, ai flores do verde ramo
se sabedes novas do meu amado!
Ai Deus, e u é?


Se sabedes novas do meu amigo
aquel que mentiu do que pôs comigo!
Ai Deus, e u é?


Se sabedes novas do meu amado
aquel que mentiu do que mh á jurado!
Ai Deus, e u é?

- Vós me preguntades polo voss´amigo,
e eu ben vos digo que é san´e vivo.
Ai Deus, e u é?


Vós me preguntades polo voss´amado,
e eu ben vos digo que é viv´e sano.
Ai Deus, e u é?


E eu ben vos digo que é san´e vivo
e seerá vosc´ant´o prazo saído.
Ai Deus, e u é?


E eu ben vos digo que é viv´e sano
e seerá vosc´ant´o prazo passado.
Ai Deus, e u é?


D. Dinis, (1261-1325)


A chamada poesia trovadoresca surge na Península por volta do século XII e constitui uma das primeiras manifestações do nosso lirismo. Na cantiga de amigo, o sujeito poético é uma donzela que exprime os seus sentimentos amorosos para com o "amigo." Aos interessados, deixo a ligação para um esclarecimento mais completo.

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14.5.08

Poema da Semana


As Palavras


São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.


Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.


Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.


Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade, in Do Coração do Dia, 1958

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12.5.08

Pessoa e os jovens europeus

Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz cheia
De alegre e anónima viuvez,
Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.
Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões p'ra cantar que a vida.
Ah,canta, canta sem razão!
O que em mim sente 'sta pensando,
Derrama no meu coração
A tua incerta voz endeando!
Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência
Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!
Segundo um inquérito feito junto de jovens universitários europeus, estes elegeram Fernando Pessoa uma das cinquenta personalidades mais influentes da cultura europeia, ao lado de outros nomes como Shakespeare, Da Vinci, Galileu Galilei, Goethe ou Mozart.
Como homenagem, deixo o poema acima transcrito, datado de 1914, onde Pessoa, recorrendo a uma simplicidade de linguagem, transmite uma grande complexidade ideológica e afectiva.

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7.5.08

Poema da Semana

O amor é o amor - e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?...


O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!


Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor,
e trocamos - somos um? Somos dois?
-espírito e calor!


O amor é o amor - e depois?!

Alexandre O'Neill, in Abandono Vigiado-1960

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25.4.08

A Frase - 25 de Abril


" Esta é a madrugada que ele esperava, o dia inicial inteiro e limpo, onde emergimos da noite e do silêncio e livres habitamos a substância do tempo."

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23.4.08

Poema da Semana

O VALOR DO VENTO

Está hoje um dia de vento e eu gosto do vento
O vento tem entrado nos meus versos de todas as maneiras e
só entram nos meus versos as coisas de que gosto
o vento das árvores o vento dos cabelos
o vento do inverno o vento do verão
o vento é o melhor veículo que conheço
só ele traz o perfume das flores só ele traz
a música que jaz à beira-mar em agosto
mas só hoje soube verdadeiramente o valor do vento
o vento actualmente vale oitenta escudos
partiu-se o vidro grande da janela do meu quarto

Ruy Belo, Todos os Poemas, Círculo de Leitores

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16.4.08

Poema da Semana

Pretende iniciar-se hoje uma rubrica semanal de homenagem à poesia e a poetas diversos. Por escolha minha - ou sugestão de amigos e leitores -, espera-se que cada um possa fruir da beleza da palavra escrita por quem melhor interpreta a alma humana. Começo com um nome grande da poesia portuguesa - Sophia de Mello Breyner Andresen -, uma das que mais admiro.
Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro
Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Dum longo relatório irrecusável
E pelos rostos iguais ao sol e ao vento
E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas
- Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro
Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo
Livro Sexto, 1962

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13.4.08

Livro do Desassossego

"Hoje, como me oprimisse a sensação do corpo aquela angústia antiga que por vezes extravasa, não comi bem, nem bebi o costume, no restaurante, ou casa de pasto, em cuja sobreloja baseio a continuação da minha existência. E como, ao sair eu, o criado verificasse que a garrafa de vinho ficara em meio, voltou-se para mim e disse: Até logo, sr. Soares, e desejo as melhoras."
Fernando Pessoa/Bernardo Soares, in Livro do Desassossego

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3.3.08

Suavidade intensa...


Gozo I

Linho dos ombros
ao tacto
já tecido
Túnica branda
cingida sobre as espáduas
Os rins despidos
no fato já subido:
as tuas mãos abrindo a madrugada
Linho dos seios
na roca dos sentidos
a seda lenta sedenta na garganta
a lã da boca
cardada
no gemido
e nos joelhos a sede
que os abranda
Linho das ancas
bordado
de torpor
a boca espessa
o fuso da garganta


Maria Teresa Horta

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